A fantástica fábrica de bolachas

A última fabrica de vinil de que se tem noticia no Brasil fica na longinqüa Belford Roxo , na Baixada Fluminense , no Rio de Janeiro. Suas quatro prensas têm capacidade para produzir 05 mil 12" por dia, mas hoje a Polysom para conseguir fabricar essa quantidade. Os escassos clientes menos de 98% de São Paulo - são bandas hardcore e punk, cantores evangélicos, duplas sertanejas de raiz e, claro, produtores de dance music. Renato Cohen, Jason Bralli, Ramilson Maia, Xerxes de Oliveira, Drumagick, B. U. M. e M4J são alguns dos que cortaram ou prensaram discos na baixada. Mas é o pessoal do hip hop que faz mais bolachas. Thaide e DJ Hom entre eles. A Polysom fica no mesmo endereço onde já funcionaram duas outras fábricas brasileiras, uma delas foi a Vinil Press, conhecida dos DJs mais antigos. No começo de 1999, quando inaugurou, as regras exigiam uma tiragem mínima de 300 unidades, mas hoje a fábrica trabalha com encomenda de no mínimo 50 discos. O vinil tem baixa saída mas permanece como principal atividade da empresa porque os artigos de material plásticos produzidos lá não estão regularizados pelo INMETRO.

O Brasil nunca foi lá essas coisas na fabricação de bolachas. Trabalhar com audio análogico de qualidade requer gente especializada e maquinário caro e importado. O torno da máquina de corte (a parte mais importante do processo) custa a bagatela de 15.000 libras. Uma cabeça de corte novinha sai entre 3 e 6 mil dólares. Por medo que a peça quebre e por falta de profissional especializado, o corte no Brasil é feito sem nenhum capricho nos parametros. E daí o som não sai. Os produtores reclamam que ouvem o chiado dos discos e não ouvem a música. O problema é histórico. Muitas das máquinas existentes no país entraram ilegalmente driblando as leis de importação. Os poucos engenheiros de corte especializados se cansaram dessa vida e migraram a muito tempo para a masterização de CDs. Material de trabalho básico para os DJs, o disco de vinil cresce em vendas graças à dance music.

O corte mais bem feito do planeta? " é o jamaicano, que tem o melhor grave do mundo", garante o produtor Xerxes de Oliveira. A DJ World traz nesta edição o passo a passo da artesanal produção do disco de vinil desde a matriz até a prensagem. O DJ Péricles, do B. U. M. - grupo carioca que já editou 3 discos de vinil, sendo um deles na atual Polysom - , acompanhou o fotógrafo Boby Paulinho pelas dependências da fábrica. Uma curiosidade é a quantidade de cachorros espalhados pelos corredores, estantes ou circulando pelo pátio entre pedaços de discos, mato e caldeiras de vapor. A técnica de fazer discos é delicada, envolve processos mecânicos, eletrônicos e químicos, e praticamente não mudou ao longo desses mais de 50 anos de vinil.

O corte

O corte é a alma do negócio. Tanto que vários discos de tecno e drum'n'bass vêm com crédito ao estúdio no rótulo. A sensível cabeça de corte ( com sua agulha de diamante ou safira ) vai formar sulcos no acetato liso, um processo que requer refrigeração por gás hélio. Existe uma freqüência suportada pela peça, que varia entre 40 hz ( grave ) e 15 mil hz ( agudo ). Exagerar no ximbal, por exemplo, pode até desarmar uma cabeça de corte. A mesa utilizada pela Polysom é de origem alemã, marca Neumann, e apesar de antiga, é bem conservada. Pilotada pelo operador William Carvalho, 21 anos e apenas 8 meses nessa função, a sala de corte é refrigerada e fica no 2º andar. É lá que começa o processo, com a fabricação da matriz de acetato, um disco pesado com 14 polegadas. Funciona como um toca-discos numa técnica invertida: enquanto o toca-discos transforma os impulsos mecânicos em em eletrônicos , a mesa de eqüalização que recebe os sinais do registro ( as músicas ) fornecido pelo produtor transforma esses impulsos eletrônicos em memecânicos. A Polysom importa os seus discos de acetato dos Estados Unidos, de uma fábrica localizada em Nova Jersey. Na Inglaterra o preço de um disco de acetato é de 10 libras. Na Califórnia, a caixa com 20 custa entre 300 e 400 dólares. Com os sulcos já traçados em sua superfície ou "cortado", na linguagem do vinil o acetato segue para a sala de galvanoplastia, processo que vai criar a matriz usada na prensagem. O Sr. Benedito Simplício Marques, 64 anos de idade e 40 de galvanoplastia, dá vários banhos no disco.Com os jatos de nitrato de prata, o acetato vai conduzir eletricidade. Em três horas numa "banheira", atrai as partículas de níquel da solução em que está de molho preenchendo todos os sulcos. A película prateada e maleável que se forma sobre o disco é a master do processo de prensagem. Ela é lavada, recebe o furo de centralização, e é levada para a máquina de cunhagem. São feitas duas matrizes, uma para o lado A, outra para o B. O acetato vai ser arquivado para futuras tiragens.

Prensagem

As duas matrizes ( lado A e B ) vão para a prensa hidráulica para a fabricação do disco propriamente dito. É como fazer um sanduíche tipo tostex. Os pães são as matrizes, o recheio é o "vinil" pastoso e quente com a cor escolhida pelo cliente - na produção de pictures ( discos com imagens, fotos etc. ), o sanduíche é feito com filmes de vinipac transparente. A prensa esmaga o PVC e os rótulos entre as duas matrizes, numa pressão entre 100 e 120 toneladas, fazendo com que a pasta seja distribuída uniformemente entre os dois moldes. Depois de 25 segundos, os condutores da prensa trocam o vapor das caldeiras ( 160° C ) por água fria pressurizada, solidificando o disco. A bolacha ainda vai passar por uma rebarbadora que retira os excessos, posteriormente reaproveitados em novas prensagens. Um dos problemas de usar vinil reciclado é que ao ser derretido o material não fica tão mele quanto o vinil puro, e essa moldagem pode criar ruidos. A polysom tem quatro prensas para discos de 12" ( lps, singles, Eps etc. ), cada uma com capacidade de produzir 1,2 mil por dia. Três delas vieram de Continental e uma da Polygram. Há ainda uma prensa para disquinhos de 7" ( compactos ). Os sulcos têm até milésimos de profundidade.

Dicas para produção de seu 12"

01- O espaçamento entre os sulcos é fator básico para obtenção de qualidade no vinil. Evite que as músicas colocadas em cada lado, somadas, ultrapassem a marca de 17 minutos. O tempo de 13 minutos é o ideal. 02- O corante preto sempre predomina e jamais se mistura com as outras cores, o que viabiliza a introdução de material reciclado, seja de discos velhos ou até de rebarbas de vinis de processos anteriores da própria fábrica. Na confecção de discos coloridos, a matéria prima é 100% nova. 03- Prefira discos com pesagem acima do padrão normal ( 110 / 120 gramas ). Uma pesagem de 150 gramas é muito boa, pois torna o disco bem pouco flexível, mais fácil de manusear e, segundo a crença generalizada entre Djs , menos suscetível a distorções, alegação que os fabricantes afirmam ser improcedente. Os processos existentes na Polysom permitem obter o máximo de 160 gramas por vinil. 04- Caso deseje confeccionar o seu próprio rótulo, imprima-o em off-set e use apenas papel atavura ( cartão ), 150 gramas. A fábrica pode fazer o seu rótulo, pois também confecciona o fotolito. Crie de preferência no programa Corel e leve-o num disquete, se preferir. Além da cor de fundo, que é a do próprio papel, o produtor poderá contar apenas com mais uma cor, a preta. É bom que no mesmo disquete também conste as fontes das letras usadas na criação do rótulo. 05- A master com as músicas que entrarão no vinil deve ser em CD ou MD, acompanhada de label com a ordem exata das faixas. Não se esqueça de separar com pelo menos 30 segundos as faixas referentes aos lados A e B. Fonte: Revista DJ World Pesquisa : DJ Egon Campos